Debbie Hewitt cobra transparência de Infantino após plano da Fifa para comercializar direitos


6 min de leitura

Debbie Hewitt cobra transparência de Infantino após plano da Fifa para comercializar direitos

Plano FFE da Fifa voltou ao centro da crise política que cerca Gianni Infantino, e agora a pressão parte diretamente de dentro da própria entidade. Em carta enviada ao presidente da Fifa, a dirigente da Football Association, Debbie Hewitt, exigiu a divulgação de todos os documentos ligados à proposta que previa a venda de uma fatia dos direitos comerciais da Copa do Mundo. A cobrança também alcança a suspensão cancelada do atacante Folarin Balogun, episódio que aumentou a desconfiança em torno da governança da entidade.

Hewitt, que também ocupa o cargo de vice-presidente da Fifa, quer que o material esteja disponível antes da próxima reunião do Conselho da entidade, marcada para 15 de outubro. O documento, encaminhado ainda ao secretário-geral Mattias Grafstrom, aponta falhas de gestão e fala em um desgaste da cultura interna do comando do futebol mundial. O tom da carta é duro e expõe um clima de contestação que já vinha crescendo nas últimas semanas.

Plano FFE da Fifa amplia a pressão sobre a direção

O centro da disputa é o FFE, sigla para Fifa Forward Enterprise, projeto que previa a criação de uma nova empresa para administrar direitos comerciais e de bilheteria de competições da entidade, incluindo as Copas do Mundo. Dentro desse desenho, 21% da companhia seriam vendidos a um investidor privado. A ideia acabou abandonada depois de forte resistência das federações nacionais.

Na avaliação expressa por Hewitt, a Fifa precisa ir além do simples recuo. Ela defende uma revisão independente para esclarecer como o FFE nasceu, quem participou da concepção e de que maneira a oferta ao investidor privado foi colocada em disputa. Em outras palavras, não basta encerrar o projeto; será preciso explicar cada etapa do processo.

A cobrança ganha peso porque o tema já saiu do campo político e entrou também na esfera jurídica. No mês passado, a Uefa começou a preparar ações legais contra Infantino em três tribunais dos Estados Unidos, com foco justamente no plano FFE, e também exigiu a liberação de todos os documentos. A Fifa reagiu com irritação e acusou a entidade europeia de promover uma campanha para manchar a imagem da direção.

Fifa Council quer respostas sobre o caso Balogun

Paralelamente à crise do FFE, a carta de Hewitt pede explicações formais sobre a suspensão de Folarin Balogun, revertida durante a Copa do Mundo. A Football Association diz que se incomodou com o episódio desde o início e já havia solicitado acesso aos documentos que embasaram a decisão.

Balogun, então com 25 anos, foi autorizado a atuar contra a Bélgica nas oitavas de final, embora o cenário inicial indicasse que ele cumpriria suspensão de uma partida. O atacante havia recebido cartão vermelho direto por uma falta sobre Tarik Muharemovic na vitória por 2 a 0 sobre a Bósnia-Herzegovina, na fase anterior. Depois disso, a Fifa informou que a punição automática ficaria suspensa por um ano, sem detalhar a justificativa além da regra que permite esse tipo de medida.

O episódio ficou ainda mais sensível porque a FA havia enviado uma carta de apoio à reeleição de Infantino antes da polêmica. Depois do caso, porém, surgiram preocupações com possível interferência política. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a confirmar que telefonou a Infantino para pedir revisão da suspensão de Balogun.

Reeleição de Infantino segue cercada de tensão

A carta de Hewitt chega num momento em que Infantino tenta atravessar uma fase delicada sem perder apoio político. O dirigente, de 56 anos, buscará um quarto mandato na eleição de março, e os concorrentes terão até 18 de novembro para apresentar uma candidatura alternativa. Ao mesmo tempo, a base de apoio do suíço se fragmentou em várias federações após a repercussão do FFE.

Entidades como as de Inglaterra, País de Gales e Escócia retiraram as cartas de apoio que haviam dado ao atual presidente. Por outro lado, Infantino ainda mantém sustentação relevante em outras regiões, com as confederações da África, da América do Sul e da Oceania reafirmando respaldo ao seu nome. O quadro, portanto, não é de isolamento total, mas de evidente desgaste político.

Depois de cancelar o FFE, Infantino convocou uma reunião do conselho de gestão da Fifa em Rabat, no Marrocos. Até agora, porém, o Conselho da entidade não recebeu uma explicação formal sobre o projeto, e essa ausência virou justamente o novo ponto de atrito. A expectativa é que isso mude no próximo encontro, quando Hewitt e os outros 35 integrantes do FIFA Council cobrem respostas diretamente do presidente.

O que está em jogo para a governança da Fifa

O caso junta dois temas sensíveis: transparência administrativa e influência política em decisões esportivas. Quando uma entidade do porte da Fifa deixa perguntas sem resposta, a disputa deixa de ser apenas interna e passa a afetar a confiança de federações, dirigentes e torcedores. É esse ambiente que a carta de Hewitt tenta alterar, ao exigir documentos e um relato completo sobre o que ocorreu.

A pressão não deve desaparecer tão cedo. Com a reunião de 15 de outubro no horizonte, Infantino terá de responder não só ao incômodo com o FFE, mas também às dúvidas sobre Balogun e sobre a forma como a direção da Fifa conduziu ambos os episódios. A próxima etapa promete ser decisiva para medir até que ponto o comando da entidade ainda consegue sustentar sua narrativa diante de tantas frentes abertas.

Autor

Jornalista esportiva e Editora | 12 anos de experiência

  • Futebol de clubes
  • mercado de transferências
  • jornalismo esportivo digital

Fernanda Castelo é jornalista esportiva e editora com 12 anos de experiência na mídia digital e impressa. Graduada em Jornalismo pela PUC-SP, com especialização em Gestão Esportiva. Especializada no futebol de clubes brasileiro, mercado de transferências e aspectos financeiros do esporte. Acredita que o jornalismo esportivo deve ser honesto com o torcedor — sem clickbait e sem rumores não verificados. No Ganhador24, supervisiona a política editorial e produz conteúdos sobre o futebol de clubes no Brasil.

você também pode gostar