Lista de Mohamed Ouahbi aponta o primeiro esboço do Marrocos pós-Mundial
FIFA e o cenário internacional à parte, a convocação de Mohamed Ouahbi para enfrentar Gabão e Lesoto vai muito além do início das Eliminatórias da CAN 2027. A lista de 29 jogadores desenha, na prática, a primeira versão do Marrocos depois da Copa do Mundo de 2026, encerrada com a seleção nas quartas de final.
O técnico precisou equilibrar continuidade e renovação. De um lado, manteve pilares de uma equipe que já tem identidade e rodagem em alto nível. De outro, abriu espaço para nomes que começam a entrar no radar com mais força. O recado é claro: o Marrocos não está sendo desmontado, mas sim reorganizado para a próxima etapa.
Marrocos pós-Copa do Mundo: continuidade sem ruptura
Para Faouzi Jamal, ex-jogador dos Leões do Atlas e treinador experiente no futebol marroquino, esta não é uma convocação comum. Segundo ele, trata-se da primeira imagem de uma seleção que já vive o “depois do Mundial”. A diferença é importante porque o elenco não parte do zero.
O grupo ainda carrega uma base forte, com experiência internacional e mecanismos bem definidos. Ao mesmo tempo, Ouahbi precisa introduzir novas peças sem quebrar o que já foi construído. Nesse sentido, a lista responde a três frentes ao mesmo tempo: preservar a espinha dorsal, renovar gradualmente e redistribuir funções dentro da equipe.
Marrocos pós-Copa do Mundo e o peso da posição de goleiro
O setor mais sensível da convocação talvez seja o gol. Yassine Bounou foi mantido, ao lado de Munir El Kajoui e Reda Tagnaouti. A novidade ficou por conta de Alaa Bellaarouch, enquanto El Mehdi Al Harrar ficou fora da relação.
A leitura é prudente. Bounou segue como nome do presente, mas Bellaarouch começa a ser observado como possível aposta de futuro. Não se trata de proclamar um sucessor imediato, e sim de preparar a transição com calma. Um goleiro do peso de Bounou não sai de cena de uma hora para outra, e a convivência com os mais experientes faz parte desse processo.
A ausência de El Harrar, por sua vez, não encerra qualquer discussão. A concorrência continua aberta, e o momento de forma segue sendo critério relevante. Ouahbi mostra, assim, que quer valorizar o agora sem deixar o amanhã em suspenso.
Hakimi presente no grupo, ainda que sem entrar em campo
Achraf Hakimi foi convocado, mesmo suspenso para os dois jogos. Isso dá à lista um peso simbólico evidente. O lateral segue como um dos líderes do grupo e como referência de uma geração que marcou a trajetória recente dos Leões do Atlas.
Na visão de Faouzi Jamal, a ausência de Hakimi dentro das quatro linhas não impede sua influência no ambiente da seleção. Pelo contrário: ele pode ajudar na integração dos novos nomes e manter o vínculo com o grupo. Além disso, a suspensão abre espaço para Ouahbi observar alternativas no lado direito, com Zakaria El Ouahdi entre as opções a serem testadas.
Esse tipo de cenário costuma revelar mais do que aparenta. Quando uma peça central sai de campo, o treinador ganha a chance de ajustar mecanismos e medir a profundidade real do elenco.
Meio-campo do Marrocos pós-Copa do Mundo ganha novas perguntas
Se há uma ausência que mexe diretamente com a estrutura da equipe, ela é a de Sofyan Amrabat. O próprio jogador já informou que não estará com a seleção sob o comando de Ouahbi. E isso altera muito mais do que uma simples lista de convocados.
Amrabat exercia uma função decisiva na proteção da defesa, na recomposição, na cobertura dos laterais e no equilíbrio das transições. Não era apenas um volante. Era, em muitos momentos, a peça que mantinha o time em ordem quando a partida acelerava.
Com isso, duas perguntas passam a orientar o trabalho de Ouahbi: quem assume essas tarefas e que tipo de meio-campo ele quer construir agora? A resposta pode não ser a simples busca por um “novo Amrabat”. O técnico talvez prefira outra lógica, com características diferentes e mais flexibilidade nas funções.
Profundidade do elenco e novas soluções no setor criativo
A convocação para o meio-campo mostra variedade. Samir El Morabet, Ayyoub Bouaddi, Neil El Aynaoui, Oussama Targhalline, Bilal El Khannouss, Soufiane El-Faouzi, Azzedine Ounahi e Ismael Saibari formam um bloco diverso, com perfis capazes de construir, pressionar, atacar espaços e circular por diferentes zonas do campo.
Essa pluralidade agrada no papel, mas exige organização. Não basta reunir jogadores talentosos; é preciso dar encaixe ao conjunto. Faouzi Jamal chama atenção justamente para isso: uma seleção pode ser vistosa com a bola, mas a solidez aparece nas reações logo após a perda.
Saibari, inclusive, surge como peça interessante mesmo com a suspensão no primeiro jogo. Ouahbi enxerga nele mais de uma função: armador, meia adiantado e até opção mais próxima da área. Essa versatilidade pode virar uma ferramenta importante para alterar a estrutura ofensiva conforme o andamento da partida.
Defesa mantém base conhecida e abre espaço para jovens
Na linha defensiva, o técnico evitou uma ruptura brusca. Noussair Mazraoui, Nayef Aguerd, Achraf Hakimi e Romain Saïss seguem como nomes de continuidade. Ao mesmo tempo, a convocação de Abdelhamid Ait Boudlal, Ali Maamar, Redouane Halhal e Issa Diop aponta para uma porta aberta à nova geração.
Essa combinação faz sentido em um ciclo de transição. Os mais experientes continuam úteis não apenas pelo desempenho, mas também pelo papel de liderança dentro do grupo. Já os mais jovens entram para aprender em ambiente competitivo, sem pressão de assumir tudo de uma vez.
Ouahbi parece interessado em construir essa passagem sem forçar um corte seco com o passado recente. O objetivo é manter a solidez enquanto prepara a próxima camada da seleção.
Marrocos pós-Copa do Mundo e o teste imediato contra Gabão e Lesoto
Os jogos contra Gabão e Lesoto terão valor bem maior do que o calendário indica. Eles serão os primeiros compromissos oficiais de Ouahbi após a Copa do Mundo e também o primeiro exame real do novo ciclo.
Contra o Gabão, em Rabat, o treinador já terá de responder a questões diretas. Quem ocupa o lado direito sem Hakimi em campo? Como reorganizar o meio sem Amrabat? De que forma o time vai construir suas ações ofensivas? E, acima de tudo, como preservar o equilíbrio coletivo?
O duelo com o Lesoto, em seguida, servirá como laboratório adicional. Com a mesma janela internacional, Ouahbi poderá ajustar parcerias, rever funções e observar com mais atenção os recém-chegados, como Bellaarouch, Zabiri e Bentayeb.
Renovação ofensiva ganha forma com Zabiri e Bentayeb
O ataque é talvez o setor em que o novo ciclo aparece com mais nitidez. Brahim Díaz e Soufiane Rahimi representam a linha de continuidade, enquanto Yassir Zabiri, Abdellah Ouazane e Tawfik Bentayeb ampliam o repertório ofensivo do grupo.
Zabiri chega com respaldo do bom início de temporada no Racing Santander. A convocação soa como reconhecimento por desempenho, mas também como teste de adaptação. No nível de seleção, as exigências mudam. O espaço some mais rápido, o ritmo sobe e a leitura tática pesa ainda mais.
Bentayeb vive situação parecida. Artilheiro da segunda divisão francesa na temporada passada, ele ganhou espaço por merecimento. Agora, terá de provar que pode repetir eficiência, pressionar, se movimentar bem e participar do jogo coletivo. A porta se abriu, mas a permanência dependerá da resposta em campo.
Lista de Mohamed Ouahbi indica transição, não revolução
No fim das contas, a convocação aponta para uma mudança gradual. Bounou segue no gol, Hakimi continua como referência mesmo fora dos gramados e parte dos nomes que construíram a identidade recente permanece no grupo. Ao redor deles, surgem novos jogadores que começam a ocupar espaço real.
Ouahbi não parece interessado em desmontar uma seleção que chegou longe na Copa do Mundo de 2026. O que ele tenta fazer é mais sutil: preservar a base, ajustar o desenho tático e preparar a sucessão dos pilares mais importantes, inclusive em posições como a de Bounou, Hakimi e Amrabat.
As respostas ainda virão com o tempo. Mas, diante do Gabão e do Lesoto, o Marrocos já começa a mostrar qual rosto quer ter na próxima fase de sua história.