Viúvas de Matt Beard e Graham Thorpe transformam luto em alerta no esporte
CBF O luto de Debbie Beard e Amanda Thorpe ganhou voz pública em um encontro que colocou a prevenção ao suicídio no esporte no centro do debate. As duas mulheres, que nunca haviam se conhecido, dividiram pela primeira vez suas histórias em um evento ligado ao príncipe de Gales e à Royal Foundation, com um recado claro: esporte e saúde mental não podem mais ser tratados como assuntos separados.
Debbie perdeu o marido, Matt Beard, ex-treinador do Liverpool Women, em setembro de 2025. Amanda viveu uma tragédia semelhante em 2024, quando Graham Thorpe, ex-jogador de críquete da Inglaterra e de Surrey, tirou a própria vida após um período de depressão. O encontro também reuniu Simon Jack, editor de negócios da BBC, que tinha 17 anos quando o pai morreu por suicídio.
Prevenção ao suicídio no esporte entra em nova fase
A mobilização faz parte de uma iniciativa chamada On Your Side, um conjunto de recursos online que pretende tornar a prevenção ao suicídio tão presente no ambiente esportivo quanto aquecimento, treino e performance. A proposta é ambiciosa, mas nasce de uma constatação incômoda: em muitos casos, o sofrimento aparece antes de qualquer crise visível, e quase sempre encontra silêncio ao redor.
O evento foi criado para incentivar clubes, federações, treinadores e profissionais de base a reconhecer sinais de alerta mais cedo. A ideia é simples na formulação, mas difícil na prática: criar uma cultura em que pedir ajuda não seja visto como fraqueza, e sim como parte da rotina de quem vive o esporte.
Nos bastidores, a discussão ganhou peso porque ambas as histórias expõem o impacto de mudanças bruscas de trabalho, pressão pública e isolamento. Em estruturas esportivas, o desligamento de um treinador ou atleta não afeta só a carreira; muitas vezes abala vínculos, identidade e a noção de pertencimento.
As perdas de Graham Thorpe e Matt Beard
Amanda Thorpe contou que o marido já enfrentava dificuldades havia cerca de um ano a 18 meses, em meio ao período da Covid-19. Segundo ela, Graham passou por terapia e usou medicação ligada ao trabalho, mas a situação piorou depois da demissão como treinador de rebatidas, em 2022. O golpe emocional foi profundo, sobretudo porque ele não esperava a saída do cargo e tinha orgulho da vida inteira dedicada ao críquete.
Ela relatou ainda que o ex-jogador se sentiu envergonhado após a divulgação de um vídeo gravado de forma descontraída ao fim de uma viagem da equipe, em um momento em que estava com adversários e já sob forte exposição. Para Amanda, a reação pública pesou mais do que deveria e empurrou Thorpe para uma queda rápida. Depois, ele fez uma tentativa grave de suicídio, e ela só soube que ele havia mencionado esse tema nas sessões de terapia mais tarde.
No caso de Matt Beard, Debbie lembrou mudanças de comportamento e uma escalada de pressão enquanto a equipe atravessava mau momento dentro de campo. Ela contou que o técnico levava para casa o peso das críticas, inclusive nas redes sociais, e que raramente dizia o que realmente estava passando. Quando perguntava se estava tudo bem, ele respondia que sim, sem querer preocupar a família.
O peso do trabalho e o silêncio fora de campo
Debbie também revelou que o marido se sentia culpado em situações comuns da profissão, como dispensar atletas ou comunicar decisões duras. Para ela, isso mostrava como a carga emocional do comando pode ser ignorada por quem olha apenas para resultados. Matt, disse ela, tinha sensibilidade para perceber quando um jogador não estava bem, mas nem sempre encontrava o mesmo espaço para falar de si.
Amanda fez leitura parecida sobre o marido. Para ela, Graham era competitivo, alegre e acostumado a lidar com altos e baixos do esporte, mas acabou perdido em uma espécie de redemoinho emocional. A sensação de isolamento cresceu, e ele chegou a acreditar que havia perdido os amigos, algo que a esposa tentava combater com insistência.
As duas histórias mostram como a rotina esportiva pode esconder sinais importantes. Entre viagens, entrevistas, cortes de elenco e cobrança por resultados, sobra pouco espaço para conversas mais profundas. Quando o problema aparece de forma aberta, muitas vezes a crise já está avançada.
Debate sobre apoio, terapia e responsabilidade das entidades
Ao falar sobre o que poderia ter sido feito, Amanda afirmou que talvez o marido precisasse de suporte mais intenso, até mesmo em regime residencial, mas que a família não sabia onde buscar esse tipo de ajuda. Ela acredita que o trabalho do England and Wales Cricket Board poderia ter sido mais firme depois da saída dele do cargo de treinador.
Após a morte de Thorpe, a entidade classificou a perda como uma tragédia profunda e disse que o caso era um lembrete duro das dificuldades enfrentadas por muitas pessoas em relação à saúde mental. Já o Burnley informou que não faria comentários sobre o processo legal envolvendo a morte de Matt Beard, depois que a investigação foi adiada sem prazo definido.
Debbie defendeu que o novo kit de ferramentas da campanha só fará diferença se houver encaminhamento real. Para ela, não basta abrir o tema: é preciso garantir conexão com profissionais de confiança e apoio consistente quando a pessoa pedir ajuda. A relação com terapeuta, destacou, depende de segurança, acolhimento e abertura.
Uma conversa difícil, mas necessária
As duas viúvas também falaram do peso cotidiano que vem depois da perda. Debbie lembrou que, além da dor, existe a realidade financeira, com a ausência de uma segunda renda, contas iguais e a necessidade de seguir com escola, casa e rotina dos filhos. Amanda, por sua vez, descreveu culpa, raiva e o inevitável jogo mental dos “e se?”, sentimentos comuns em quem fica.
No fim do encontro, as duas encontraram um ponto em comum: a decisão de usar a própria experiência para evitar que outras famílias passem pelo mesmo. “Estamos nessa estrada juntas”, resumiu a conversa, com a disposição de falar mais, ouvir mais e insistir que o tema precisa ser levado a sério em todos os níveis do esporte.
Se você ou alguém próximo está em sofrimento ou desespero, há ajuda disponível. Procure apoio especializado e canais de atendimento de saúde mental na sua região, ou serviços de emergência se houver risco imediato.