Tuchel entra em contagem regressiva para recuperar a confiança da Inglaterra
FIFA e Thomas Tuchel agora estão no centro de uma cobrança que vai muito além dos resultados imediatos. A Inglaterra deu ao técnico alemão uma extensão de contrato até 2028 em fevereiro, mas o efeito prático desse gesto ainda depende de algo muito mais difícil: convencer torcedores e jogadores de que o caminho escolhido faz sentido.
O paralelo com Fabio Capello aparece de forma incômoda. Na época, a Federação Inglesa renovou com o italiano antes da Copa de 2010 e acabou vendo a relação desandar poucos meses depois. Tuchel começou bem, fechou uma campanha perfeita nas Eliminatórias para a Copa de 2026, mas a frustração que cercou o último Mundial ainda pesa sobre sua gestão.
O terceiro lugar conquistado pela seleção foi histórico em termos de colocação, mas não apagou a sensação de oportunidade desperdiçada. A derrota por 2 a 1 para a Argentina, na semifinal, virou o ponto de ruptura de uma campanha que parecia controlável e terminou em desgaste.
A semifinal contra a Argentina virou o grande teste — e o maior problema
O jogo em Atlanta, em 15 de julho, mudou o humor em torno de Tuchel. A Inglaterra saiu na frente com Anthony Gordon e parecia em posição de controlar o confronto, diante de uma Argentina que já não exibia o mesmo vigor de antes. Em vez disso, recuou.
A reação do treinador foi ainda mais questionada: ele tirou Gordon para colocar Ezri Konsa e alterou a estrutura para uma linha de cinco defensores. O efeito foi o oposto do desejado. A equipe passou a sofrer com a pressão, perdeu a saída de bola e praticamente parou de jogar no trecho final.
Lionel Messi comandou a virada. Primeiro, participou da jogada do empate de Enzo Fernández; depois, levantou a bola para o gol de Lautaro Martínez nos acréscimos. Para muitos observadores, ficou a impressão de que a Inglaterra escolheu o caminho mais conservador justamente quando tinha o adversário ao alcance.
Tuchel, a posse de bola e a discussão sobre o “DNA” inglês
Depois do Mundial, Tuchel tentou enquadrar a eliminação como parte de uma reflexão maior sobre a cultura do futebol inglês. Ele questionou se a seleção valoriza mesmo o controle da posse e sugeriu que a equipe sofre para dominar jogos da maneira que espanhóis, argentinos e brasileiros costumam fazer.
O problema é que esse discurso veio acompanhado de decisões que alimentaram a crítica. Na semifinal, Ivan Toney e Marcus Rashford só entraram aos cinco minutos do tempo adicional, quando o time já estava em desespero. Bukayo Saka, por sua vez, não saiu do banco naquele jogo, mas acabou brilhando na disputa pelo terceiro lugar diante da França, com hat-trick e atuação completa.
As alterações iniciais também passaram longe de oferecer a resposta que a seleção precisava. Konsa, Dan Burn e Nico O’Reilly foram os primeiros nomes acionados, mais para proteger uma vantagem mínima do que para corrigir o problema da posse. Em uma equipe com Harry Kane, Jude Bellingham, Morgan Rogers, Declan Rice e Elliot Anderson em campo por longos períodos, a cobrança por iniciativa era natural.
Tuchel tenta virar a página, mas a cobrança sobre escolhas segue pesada
Mesmo após dois meses de reflexão, Tuchel dobrou a aposta nas próprias ideias. Ele indicou que talvez não tenha tempo suficiente para ensinar a equipe a controlar jogos com mais consistência e voltou a insistir na tese de que o futebol inglês tende a buscar partidas mais abertas.
Essa leitura, porém, não convenceu parte da torcida nem da imprensa local. O treinador afirmou que a Copa serviu para aproximar a seleção do público, citando conversas casuais em táxis, cafeterias e supermercados. Na prática, o que ficou mais marcado foi a sensação de que a Inglaterra perdeu uma chance rara de chegar ao título.
O receio da federação é claro: repetir o ciclo que já aconteceu com Capello. Tuchel ainda tem tempo, mas precisará mostrar que aprendeu com a semifinal e que não pretende proteger apenas a própria tese quando a exigência aumentar de verdade.
Palmer, Gibbs-White e a busca por um elenco mais funcional
A relação com os jogadores também entrou no radar. Cole Palmer virou um caso sensível. O meia do Chelsea voltou a ser convocado depois de um início forte de temporada, com quatro participações em gols em cinco partidas da Premier League, mas recebeu um recado público de que precisará manter o nível para justificar a vaga.
O timing não ajudou. Palmer acabou cortado da última lista por um problema muscular leve, justamente quando comemorava a volta à seleção. Além disso, a comparação com nomes veteranos e com outras opções ofensivas deixou a impressão de que Tuchel poderia ter sido mais cuidadoso ao explicar suas escolhas.
Morgan Gibbs-White também reapareceu na convocação após uma sequência de desistências por lesão. O meia do Nottingham Forest já havia sido deixado de fora em um primeiro momento, sob a justificativa de que um quarto camisa 10 não ajudaria o grupo. A versatilidade do jogador, porém, torna a decisão mais discutível do que parecia à primeira vista.
Tuchel e o desafio de montar a Inglaterra para o próximo ciclo
A próxima etapa da seleção é a Liga das Nações, com jogos contra Espanha, Chéquia e Croácia, além de novo duelo com os chés no fechamento da sequência. O calendário chega em um momento delicado, porque vários nomes importantes foram desconvocados por lesão: Declan Rice, Kobbie Mainoo, Marcus Rashford, Tino Livramento e o próprio Palmer.
Tuchel respondeu com chamadas como James Garner e reforçou a presença de jogadores em diferentes perfis. Entre os defensores, Trent Alexander-Arnold segue como uma peça de enorme potencial técnico, embora ainda precise reconquistar espaço por mérito. Reece James, Djed Spence e John Stones estão fora por problemas físicos.
Na frente, a preocupação é a dependência crescente de Harry Kane, que deve seguir como referência até a próxima Eurocopa. Dominic Calvert-Lewin aparece como opção imediata, enquanto a situação de Ollie Watkins ficou menos promissora após sua ida para a Arábia Saudita. Tuchel ainda cogita acelerar jovens como Brian Madjo, Rio Ngumoha, Alex Scott, Myles Lewis-Skelly, Lewis Hall e, mais adiante, Max Dowman.
O caminho, portanto, está desenhado: ou Tuchel transforma a renovação do elenco em evolução real, ou o discurso sobre “DNA” e medo de perder o controle continuará sendo lembrado como desculpa. A Inglaterra tem material para competir em alto nível, mas a confiança só volta quando as escolhas do treinador passarem a inspirar, e não a dividir.