Artem Stepanov cresce entre guerras, viagens e gols na Holanda
Artem Stepanov virou assunto muito além da Eredivisie, e não apenas pelos gols. O atacante ucraniano de 19 anos atravessou guerra, mudanças de país e idas e vindas no futebol de base até encontrar, em Utrecht, o cenário ideal para acelerar a carreira. Hoje, ele é tratado como uma das promessas mais interessantes da geração, com números fortes e uma comparação inevitável com FIFA de Erling Haaland rondando cada atuação.
A trajetória, porém, está longe de ser linear. Do centro de formação do Shakhtar Donetsk ao Bayer Leverkusen, passando por uma passagem frustrante pelo Nürnberg, Stepanov teve de amadurecer cedo. E o que chamou atenção na Holanda foi justamente a combinação entre presença física, leitura de jogo e faro de gol.
Uma infância moldada pelo futebol e pela guerra
Nascido em Lutsk, no noroeste da Ucrânia, Stepanov cresceu dentro do futebol. O pai, Roman, foi atacante e também trabalhou como treinador, o que ajudou a moldar o início da formação do filho. O jovem passou pela academia do Volyn Lutsk e depois seguiu para o Shakhtar aos 13 anos, num caminho que parecia apontar para uma ascensão natural.
Mas a invasão russa em larga escala alterou tudo. Aos 15 anos, ele e a família deixaram o país rumo à Alemanha, numa mudança forçada que interrompeu rotina, planos e estabilidade. A história de Stepanov, desde então, passou a ser também a de um jogador tentando se firmar longe de casa, em meio a recomeços sucessivos.
Artem Stepanov no Bayer Leverkusen: talento cedo, estreia na Champions e empréstimos
Na Alemanha, o nome de Stepanov ganhou força rapidamente. Ele quase assinou com o Bayern de Munique após período de testes, mas a negociação não avançou por motivos descritos como “não esportivos”. Pouco depois, um contato intermediado por conhecidos da família o levou ao Bayer Leverkusen, que o contratou no verão de 2022.
O impacto foi imediato. Com 18 gols em 23 jogos pelos sub-17, ajudou o time a conquistar o campeonato da categoria e, em seguida, foi promovido aos sub-19. A sequência de boas atuações chamou a atenção de Xabi Alonso, que o levou ao elenco profissional. Em novembro de 2024, Stepanov estreou no time principal ao entrar no segundo tempo da vitória por 5 a 0 sobre o Red Bull Salzburg, pela Liga dos Campeões.
Depois disso, apareceu mais uma vez, contra o Sparta Praga, mas ainda sem espaço real na Bundesliga. O clube então decidiu emprestá-lo ao Nürnberg, da segunda divisão alemã, em 2025. A experiência não engrenou: sem gols em 13 partidas, o acordo foi encerrado antes do fim e o atacante acabou transferido para o Utrecht no mercado de inverno.
Artem Stepanov no Utrecht: gols, adaptação e confiança em alta
Na Holanda, o cenário mudou de vez. Quase de imediato, Stepanov entrou no time titular e precisou de algumas semanas para desencantar. O primeiro gol saiu em cobrança de pênalti contra o AZ, num jogo que também lhe rendeu o prêmio de melhor em campo. A partir dali, engrenou uma sequência forte: quatro gols em cinco partidas.
O Utrecht ainda sonhou com vaga na Conference League via playoffs da Eredivisie, e o atacante contribuiu com um gol na semifinal. Na final, porém, o time caiu nos pênaltis diante do Ajax. Mesmo assim, o clube e o Bayer Leverkusen acertaram em abril a extensão do empréstimo até o fim da temporada 2026/27, com opção de compra fixada em 2 milhões de euros.
O próprio Stepanov já deixou clara a satisfação com a fase atual. Disse que gosta de estar ali e que os gols recentes têm muito a ver com o coletivo. O novo técnico, Anthony Correia, também se mostrou entusiasmado e vê no ucraniano uma peça capaz de render muitos gols se permanecer no elenco.
Artem Stepanov no Utrecht: números fortes e um início de temporada explosivo
Desde o retorno da pausa de verão, o atacante manteve o ritmo alto. O Utrecht venceu apenas uma das sete primeiras partidas da Eredivisie, mas Stepanov marcou em sequência e empurrou a equipe para jogos competitivos. Fez um gol de cabeça contra o AZ, apareceu bem no empate por 3 a 3 com o Sparta e voltou a balançar as redes diante do PSV, abrindo o placar antes da goleada sofrida por 6 a 1.
Houve ainda o episódio contra o Go Ahead Eagles, em duelo interrompido após objetos lançados da arquibancada. Quando a partida foi retomada, sem público, Stepanov converteu um pênalti nos acréscimos e igualou o marcador. Depois, diante do Excelsior, chegou a cinco gols em cinco jogos ao completar de perto um cruzamento rasteiro. Foi o primeiro triunfo do Utrecht na temporada.
O próprio atacante tratou a sequência com naturalidade. Em tom confiante, afirmou que sabe do que é capaz. A resposta em campo, por enquanto, confirma essa postura.
Perfil físico, leitura de área e comparação com Haaland
Com 1,91 m, Stepanov impõe respeito. É forte no jogo aéreo, protege bem a bola e também oferece mobilidade fora da área. Não se limita a ser um centroavante fixo; recua para participar da construção, abre espaço pelos lados e usa o corpo para segurar a marcação antes de distribuir a jogada. Há também momentos em que acelera com a bola e consegue romper linhas.
Boa parte dos gols nasce da leitura que faz do lance. Ele antecipa a trajetória da bola, ocupa bem os espaços e chega ao ponto certo para finalizar com simplicidade. Correia destacou justamente essa inteligência, além do uso do corpo e da capacidade de se tornar ainda melhor nesse aspecto.
As comparações com Erling Haaland, claro, são inevitáveis. O tamanho, o estilo direto e o senso de gol alimentam a analogia, embora ainda seja cedo para projetar o mesmo impacto do norueguês. Ex-auxiliar da seleção sub-21 da Ucrânia, Dmytro Mykhailenko, já apontava semelhanças de gabarito, velocidade e coordenação, além da inspiração no atacante do Manchester City. Stepanov, porém, ainda está em outra curva da carreira.
O desafio de transformar promessa em trajetória sólida
Os números no Utrecht mostram evolução, mas também deixam claro que o caminho ainda está em construção. Em 21 partidas pelo clube, Stepanov soma 10 gols, o que é expressivo para alguém tão jovem. Ao mesmo tempo, a passagem pelo Nürnberg provou que força física, sozinha, não resolve tudo em contextos mais exigentes.
Companheiros como Dani de Wit já apontaram que ele ainda precisa melhorar a técnica e a consistência no jogo sem bola. O zagueiro Matisse Didden resumiu o momento do atacante de forma precisa: ele ainda parece um diamante bruto, mas um diamante que começa a se afirmar.
Esse processo sofreu um baque recente. Convocado pela primeira vez para a seleção da Ucrânia, Stepanov teve de desistir após uma lesão no tornozelo em jogo contra o Feyenoord. Foi um golpe duro, principalmente porque ele já falava em voltar ao país para mostrar seu futebol. Agora, a prioridade é recuperar a forma e manter o ritmo no Utrecht. O resto, como a carreira dele vem provando, pode mudar rápido.