João Carlos revive bastidores do Corinthians e lembra o “resgate” de Marcelinho Carioca
João Carlos construiu uma carreira que poucos zagueiros brasileiros podem colocar no currículo. Campeão mundial com o Corinthians, multicampeão pelo Cruzeiro e com passagem pela Seleção, ele olha para trás com a sensação de quem venceu muito mais do que partidas. Aos 54 anos, o ex-defensor também carrega histórias duras, como fome no início da trajetória e até o período em que era tratado como peça fora do elenco antes de ganhar espaço de vez.
Hoje longe dos gramados profissionais, ele vive em Sete Lagoas, onde nasceu. Depois de encerrar a carreira em 2016, abandonou também a ideia de seguir como treinador e passou a trabalhar como assessor parlamentar, além de comandar crianças no futsal de uma escola particular. A rotina é outra, mas o passado segue vivo nas lembranças, sobretudo nos anos mais vitoriosos com a camisa do Corinthians e do Cruzeiro.
O episódio com Luxemburgo e Marcelinho Carioca
Entre tantas memórias, João Carlos destacou um episódio que ajuda a explicar o ambiente do Corinthians campeão brasileiro de 1999 e mundial em 2000. Ele contou que precisou intervir para tentar convencer Vanderlei Luxemburgo a contar com Marcelinho Carioca em um jogo da Copa do Brasil contra a Ponte Preta.
Segundo o ex-zagueiro, Luxemburgo e Marcelinho viviam em atrito e, na preleção, o atacante nem aparecia como opção. A situação piorou quando o grupo percebeu que o craque estava no ônibus, mas ainda assim a ideia inicial era deixá-lo fora da partida. João Carlos relatou que foi cobrado pelos companheiros para falar com o treinador e levar o caso adiante.
O diálogo não foi simples. João disse que pediu diretamente a Luxemburgo para liberar Marcelinho, recebeu a responsabilidade completa pelo risco e, no fim, o camisa 11 foi para o jogo. A decisão deu resultado: o Corinthians venceu por 3 a 0, com três gols de falta, um deles de Marcelinho, na lembrança do ex-zagueiro. Para João, o talento do meia-atacante compensava as dificuldades de convivência, embora o temperamento do jogador exigisse cuidado constante.
João Carlos e a caminhada marcada por sacrifício
A trajetória até a elite do futebol foi tudo menos confortável. João Carlos lembrou que passou fome no início da carreira, quando defendia o Democrata de Sete Lagoas. Em uma família com nove irmãos, todos precisavam trabalhar, e o futebol, no começo, era visto pelo pai como uma aposta arriscada demais.
O ex-zagueiro contou que precisou abandonar outros trabalhos para conseguir treinar. O pai não aceitava a ideia de viver apenas para o esporte e repetia que futebol era coisa de vagabundo, na visão dele. A cobrança por sustento era pesada, e o jovem João Carlos precisou insistir para seguir no caminho que o levaria a Cruzeiro, Corinthians e Seleção Brasileira.
Mesmo depois da ida ao Cruzeiro, o início não foi nada fácil. Comprado em 1994, ele acabou reemprestado em anos seguintes até enfim se firmar. Quando Paulo Autuori assumiu, a situação ficou ainda mais delicada: João ficou treinando separado, sem poder sequer se trocar no mesmo vestiário dos demais jogadores, até recuperar espaço com Nelsinho Baptista em 1997.
O Cruzeiro, o Mundial e a Seleção Brasileira
Foi com Nelsinho que a carreira do zagueiro ganhou impulso de vez. João Carlos se firmou na defesa do Cruzeiro e virou nome importante no cenário nacional, a ponto de disputar o Mundial de Clubes contra o Borussia Dortmund, no Japão, em 1997. O clube mineiro havia reforçado o elenco para a decisão com quatro nomes de peso e, na avaliação dele, isso mexeu com a harmonia do grupo.
João afirmou que o time estava fechado antes das contratações de última hora e que a chegada de atletas como Bebeto, Donizete Pantera, Gonçalves e Alberto Valentin acabou alterando o ambiente. Além disso, a questão financeira também pesou. Segundo ele, houve divergência sobre a premiação em caso de título, o que aumentou a tensão nos bastidores antes da decisão.
Na Seleção, o ex-zagueiro somou 10 partidas e viveu um período marcante em 1999, quando foi campeão da Copa América no Paraguai como titular. Também foi vice da Copa das Confederações, no México. A evolução internacional veio junto com a valorização financeira, algo que ele demorou a sentir no bolso.
Do salário modesto às quase mudanças para a Europa
João Carlos lembrou que, quando foi convocado para a Copa América, recebia R$ 12 mil. Na comparação com outros nomes da posição, a diferença era enorme. Só depois da ida para o Corinthians, em 1999, o cenário mudou de forma mais consistente para ele.
Antes disso, o zagueiro esteve perto de jogar fora do país em mais de uma ocasião. Houve proposta do Monaco, além de possibilidades ligadas a França, Holanda e Itália. Em outra passagem, já após sair do Corinthians e retornar ao Cruzeiro por empréstimo, ele contou que chegou a ser observado pelo Milan e acabou seguindo outro rumo, mais tarde, para o Japão.
O destino poderia ter sido diferente, mas o futebol brasileiro acabou marcando sua história de forma mais forte. No Corinthians, João Carlos disputou 92 partidas e marcou nove gols. No currículo, carrega títulos importantes: o Brasileiro de 1999, o Mundial de Clubes de 2000 e o Paulista de 2001, em um período em que dividiu vestiário com nomes como Edilson, Luizão, Vampeta e Ricardinho.
O fim da carreira e a volta para Sete Lagoas
Depois de encerrar a carreira como jogador, João ainda tentou a vida como treinador. Rodou por clubes do interior de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e até do Amapá, mas desistiu após 11 anos de investimento na nova função. A decisão, desta vez, não teve a ver com falta de mercado, e sim com a vida familiar.
Ele contou que os filhos cresceram, entraram na faculdade e a distância passou a pesar. A esposa chamou para uma conversa franca, apontando que a rotina de viagens longas e meses fora de casa já não combinava com a vida do casal. João concordou e voltou para Sete Lagoas, onde reorganizou a própria trajetória longe da pressão dos gramados.
No fim, o ex-zagueiro resume a jornada com gratidão. A lembrança da mãe, que o incentivava a buscar os próprios sonhos sem esquecer as origens, segue como referência. E, para quem enfrentou fome, desconfiança, vestiários fechados e disputas intensas nos bastidores, o saldo realmente parece de quem venceu no futebol e por meio dele.