Por que a Espanha virou a referência máxima do futebol de seleções
A Espanha chega ao confronto com a Inglaterra como a grande força do futebol masculino mundial. São títulos em sequência, uma invencibilidade que já passa de dois anos e meio e uma marca impressionante de 38 jogos sem perder, recorde internacional em vigor. Nesse período, a seleção também acumulou conquistas nas categorias de base e no futebol feminino, reforçando a sensação de um modelo esportivo que continua produzindo resultados em série.
O momento ajuda a explicar a dimensão desse domínio. Nos últimos 10 grandes torneios internacionais, os espanhóis venceram cinco. E a sequência não se limita ao time principal: vieram títulos europeus sub-19 e sub-21, além da Copa do Mundo Feminina de 2023. Em paralelo, os clubes do país também sustentaram o peso da seleção, já que levaram metade dos títulos de Champions League e Europa League disponíveis desde 2009. O retrato é de uma escola que se consolidou em várias frentes.
Os três pilares da cultura de formação espanhola
Para o especialista Guillem Balagué, a explicação passa por três bases bem definidas. A primeira está na universidade, especialmente no Instituto Nacional de Educação Física, que ajudou a profissionalizar a preparação de treinadores e profissionais do jogo ainda nos anos 1990. Essa formação mais acadêmica criou técnicos com maior entendimento dos processos de aprendizagem e treino, algo que depois se refletiu em nomes de peso no mercado.
Rafa Benítez e Marcelino García Toral aparecem como exemplos dessa geração. Antes de se tornarem treinadores de elite, estudaram futebol com profundidade e chegaram ao comando já com uma leitura mais refinada da função técnica. A segunda base, segundo Balagué, é a cultura basca. Ali, a valorização do trabalho diário, da disciplina e do esforço constante faz parte da identidade esportiva local. A terceira é a influência do Barcelona, com Johan Cruyff como figura central da revolução tática que moldou o país.
Barcelona, La Masia e a identidade do futebol espanhol
O impacto do Barcelona vai muito além dos troféus. Em 2010, oito jogadores formados na La Masia estavam na seleção campeã do mundo sob o comando de Vicente del Bosque. Nesta geração vencedora novamente, outros oito vieram do mesmo sistema. A repetição não é coincidência: é resultado de uma escola que ensina posse de bola, posicionamento e tomada de decisão desde cedo.
Cruyff abriu o caminho com o Barcelona campeão europeu em 1992 e deixou uma herança que Pep Guardiola mais tarde levou ao auge entre 2008 e 2012. Foram anos de domínio em que o clube conquistou três Ligas consecutivas, enquanto a Espanha emendava as Eurocopas de 2008 e 2012 ao redor do título mundial de 2010. Nesse ambiente, Xavi, Andrés Iniesta e Sergio Busquets cresceram em um sistema que lapidava o passe, a ocupação de espaços e a inteligência com a bola.
Jordi Gratacós, ex-diretor internacional das categorias de base do Barcelona, resume a lógica desse processo: o objetivo não é apenas formar jogadores tecnicamente fortes, mas atletas capazes de entender o sentido tático de cada ação. Em outras palavras, trata-se de criar jogadores inteligentes, que escolhem melhor dentro do campo e elevam o nível coletivo. É uma filosofia menos ligada ao improviso puro e mais ao raciocínio aplicado ao jogo.
O peso do Basco na seleção da Espanha
Se Barcelona e Catalunha representam a parte artística do futebol espanhol, o País Basco simboliza caráter e competitividade. A seleção que disputa os grandes torneios recentes contou com cinco jogadores da região, todos formados em clubes como Athletic Bilbao e Real Sociedad. No momento em que a Espanha conquistou a Eurocopa de 2024, esses clubes tinham oito jogadores atuando entre seus elencos, o que ajuda a mostrar a força da área como produtora de talentos.
Entre os nomes mais marcantes está Mikel Merino. Embora nascido em Pamplona, na comunidade de Navarra, ele transita entre influências espanholas e bascas e virou peça decisiva. Fez o gol da vitória contra a Alemanha nas quartas da Euro 2024, marcou seis vezes em seis partidas nas eliminatórias da Copa e ainda anotou gols decisivos contra Portugal e Bélgica no verão europeu. É o tipo de jogador que traduz, em campo, a mistura de intensidade e eficiência valorizada nessa escola.
César Azpilicueta, criado em Zizur Mayor, também ajuda a explicar essa identidade. O ex-capitão do Chelsea descreve a cultura basca como disciplinada, resistente e pouco afeita ao brilho fácil. Segundo ele, há uma preferência por duelos, força física e compactação, mas sem abandonar o rigor tático e a simplicidade com a bola. É um perfil que conversa bem com a ideia de equipe sólida, organizada e competitiva até o fim.
De la Fuente, a nova geração e o efeito que passa para outros clubes
Na seleção comandada por Luis de la Fuente, o peso dessa formação continua evidente. Unai Simón foi o goleiro da equipe, Aymeric Laporte sustentou a defesa, Nico Williams deu a assistência para o gol decisivo de Ferran Torres na final contra a Argentina e Martín Zubimendi entrou bem em jogos grandes. Mikel Oyarzabal, por sua vez, vive um momento de grande produtividade, com 18 gols nas últimas 20 partidas pela Espanha.
Esse ciclo também conversa com o que acontece no Barcelona de Hansi Flick. Nos dois primeiros anos do treinador alemão, a base voltou a ser protagonista, com Lamine Yamal, Dani Olmo e Pau Cubarsí ocupando papéis centrais. A semelhança com a geração de 2008 a 2012 é evidente: quando o clube consegue integrar formação, ideia de jogo e ambição competitiva, o impacto chega rapidamente à seleção.
O alcance da influência basca ainda vai além das fronteiras espanholas. Quatro técnicos da região comandam alguns dos maiores clubes da Inglaterra: Mikel Arteta no Arsenal, Unai Emery no Aston Villa, Xabi Alonso no Chelsea e Andoni Iraola no Liverpool. É mais uma pista de que a escola espanhola não produz apenas bons jogadores, mas também treinadores e metodologias que se espalham pela elite europeia. Para entender a força da Espanha atual, basta olhar para a combinação entre universidade, identidade regional e Barcelona. O resultado está no placar, nos títulos e na regularidade.
Em um cenário global cada vez mais competitivo, a Espanha encontrou uma fórmula rara: renovar sem perder a essência. E, por enquanto, ninguém parece ter decifrado essa engrenagem melhor.