Van Hecke entrega o que De Zerbi pediu, mas ainda falta a parte mais dura
Jan Paul van Hecke chegou ao Tottenham Hotspur com uma missão bem definida: ajudar na saída de bola. E, nesse aspecto, o zagueiro holandês vem cumprindo exatamente o que Roberto De Zerbi imaginava desde o início. O problema é que o papel de um defensor não termina quando a bola sai limpa da primeira linha de pressão.
Contratado em junho por 52 milhões de libras, Van Hecke foi levado ao clube muito mais para reorganizar a construção ofensiva do que para ser apenas o homem da contenção. A aposta fazia sentido, já que ele já conhecia o treinador italiano dos tempos de Brighton e ganhou reputação na Inglaterra justamente por encontrar passes verticais em meio à marcação adiantada dos rivais.
Agora, porém, o cenário em Londres exige algo a mais. O Tottenham vive fase delicada, e a eficiência com a bola nos pés deixou de ser suficiente para esconder fragilidades sem a posse.
Jan Paul van Hecke e a confiança de De Zerbi
Ao recebê-lo em Hotspur Way, De Zerbi deixou claro o que enxergava no zagueiro. Falou em força, inteligência, coragem para jogar sob pressão e personalidade para participar da saída desde a defesa. Também destacou maturidade, perfil de liderança e vontade diária de evolução.
Essa leitura ajuda a explicar por que Van Hecke foi colocado tão rapidamente no centro do projeto. O treinador queria um zagueiro capaz de romper linhas com passes precisos, algo que o holandês fez com naturalidade desde a chegada à Premier League. Em vez de rifar a bola, ele passou a oferecer soluções curtas, claras e progressivas.
O plano funcionou em parte. Na temporada, nenhum zagueiro completou mais passes que quebram linhas do que Van Hecke: foram 46. Ele também lidera entre os defensores em “passes positivamente avaliados”, com 24, indicador que reforça a qualidade de sua distribuição em relação aos concorrentes da mesma posição.
Jan Paul van Hecke e o lado que ainda precisa evoluir
Se a construção está em ordem, o restante do trabalho ainda cobra preço. De Zerbi quer que o zagueiro assuma mais comando da última linha, vença mais duelos e proteja melhor o setor defensivo. Em outras palavras, ele precisa voltar ao básico da posição: defender primeiro, distribuir depois.
Esse ajuste ganha peso num Tottenham que já sofreu oito gols nos últimos cinco jogos sem vitória. A sequência ruim recolocou a equipe sob pressão e expôs um problema que vai além da posse de bola. Quando o time perde compactação, a qualidade do passe na saída deixa de compensar.
Antes da pausa internacional, De Zerbi foi duro ao criticar a fragilidade do elenco. Depois da derrota por 3 a 2 para o Aston Villa, no fim de semana, o italiano admitiu dificuldade até para explicar o momento da equipe. Disse que nunca tinha visto um time tão inconsistente em sua carreira e que é difícil aceitar oscilações tão grandes dentro da mesma partida.
O próximo desafio de Van Hecke no Tottenham
É nesse ponto que Van Hecke entra numa nova fase da adaptação. Ele já mostrou que sabe jogar com a bola e que pode ser peça-chave no modelo de De Zerbi. Porém, a cobrança agora é outra: liderar, organizar, ganhar confrontos e se entender melhor com Micky van de Ven, parceiro natural para dar mais estabilidade ao sistema.
A evolução esperada é clara. O Tottenham não precisa apenas de um zagueiro que encontre passes entre as linhas. Precisa de alguém capaz de sustentar o time quando a pressão aumenta, sobretudo nos momentos em que a partida pede concentração, força física e comando.
Van Hecke entregou o primeiro teste. O próximo será bem mais exigente.