O’Neill cogita encerrar ciclo no Celtic após nova semana de frustração
Celtic saiu de mais uma sequência pesada de resultados, e Martin O’Neill, aos 74 anos, admitiu publicamente que pode estar perto de fechar o ciclo no comando do clube. O técnico irlandês deixou no ar a possibilidade de “encerrar” a carreira, depois da segunda derrota para o Rangers em apenas uma semana e de um revés europeu em casa diante do Ferencvaros.
O tom da entrevista pós-jogo foi revelador. O’Neill brincou com a própria idade, disse que em breve terá “110 anos” e afirmou que vai refletir sobre o momento ao longo da semana, conversando também com a diretoria. A fala, ainda que acompanhada de ironia, expõe um dilema real: até que ponto ele ainda é a pessoa certa para conduzir o clube neste momento?
Semana ruim reacende dúvidas sobre o comando do Celtic
O cenário chama atenção porque O’Neill havia voltado ao Celtic como uma espécie de solução improvável e, em grande medida, bem-sucedida na temporada passada. Ele ajudou a resgatar o time em um período turbulento e preservou a imagem de um treinador que já ocupa lugar de destaque na história do clube. Agora, porém, a sequência recente colocou esse legado sob nova pressão.
Em menos de sete dias, o Celtic acumulou três golpes duros. Além das duas derrotas para o maior rival, houve o tropeço em casa na competição europeia. Para um elenco que ainda lidera a Premiership, a combinação de resultados abriu espaço para uma pergunta incômoda: o time perdeu a confiança justamente quando mais precisava de firmeza.
O Celtic de O’Neill e a queda de rendimento em partidas-chave
O problema não surgiu apenas nesses jogos mais recentes. Em agosto, o Celtic parecia encaminhado para avançar com tranquilidade na fase preliminar da Liga dos Campeões, com vantagem larga sobre o LASK, em Linz. A eliminação inesperada deixou marcas visíveis no desempenho da equipe e, ao que tudo indica, também no aspecto mental.
Depois disso, as vitórias na Premiership vieram sem brilho. Três delas foram por margem mínima, contra Falkirk, St Mirren e St Johnstone. Quando a exigência aumentou, o time não respondeu. Diante de Rangers e Ferencvaros, faltaram consistência, reação e repertório para atravessar a pressão.
James McFadden, ex-jogador da seleção escocesa, resumiu bem uma crítica que circula entre parte da torcida: o elenco não teria sido fortalecido de fato na janela de transferências. Na leitura dele, o clube apenas recompôs saídas, sem adicionar volume ou qualidade real ao grupo.
Críticas ao elenco e às escolhas táticas
O’Neill tentou diferentes caminhos para encaixar os reforços mais caros, como Camilo Duran e Kasper Hogh, mas sem grande sucesso. Também testou variações no meio-campo para tentar devolver energia ao setor central. No clássico de domingo, chegou até a abrir mão dos pontas e a montar uma linha com cinco defensores, adiantando Kieran Tierney. A mudança, contudo, não alterou o rumo do jogo.
A leitura de Chris Sutton, que trabalhou com O’Neill em sua primeira passagem pelo clube, foi dura. Para ele, não houve equilíbrio nem competitividade no clássico em casa. Sutton destacou a distância entre as equipes, a superioridade do Rangers em todas as fases do jogo e a fragilidade física do meio-campo celta ao longo da temporada.
Neil Lennon, outro nome forte da história recente do clube, adotou um tom mais empático. Ele afirmou que O’Neill está machucado com o momento, mas ainda tem energia para seguir. Ao mesmo tempo, reconheceu que uma semana como essa traz naturalmente escrutínio, críticas e muita reflexão.
O que pode vir agora para Martin O’Neill
O período de pausa no calendário pode pesar na decisão. O’Neill disse que pretende se afastar por alguns dias, pensar com calma e depois falar com a diretoria. O treinador também lembrou a conquista dramática da temporada passada, quando o Celtic buscou o título nos minutos finais da última rodada, citando aquele dia como um dos mais marcantes de sua carreira.
Essa memória recente ajuda a entender a dimensão do impasse. De um lado, há um técnico consagrado, com crédito acumulado e história forte no clube. De outro, há sinais de desgaste, cobranças sobre o nível do elenco e uma sequência de atuações que não sustentam a confiança de antes. O próprio O’Neill parece ciente de que a resposta precisa vir dele, do vestiário e também da diretoria.
Nas arquibancadas, a paciência já mostra fissuras. Entre os torcedores, surgem críticas à escalação, ao condicionamento físico e à leitura de jogo da comissão técnica. Parte da torcida ainda enxerga margem para reação; outra parte teme que o desgaste cresça rapidamente se o time voltar a falhar. Para um clube da dimensão do Celtic, a próxima decisão pode ser tão sensível quanto a última derrota.