De Zerbi tenta destravar o ataque do Tottenham com uma ideia clara e ajustes finos


6 min de leitura

De Zerbi tenta destravar o ataque do Tottenham com uma ideia clara e ajustes finos

Tottenham em busca de gols virou o grande enigma do início da temporada. Depois de quatro rodadas, o time ainda não marcou na Premier League, mesmo após investir pesado em reforços ofensivos. O trabalho de Roberto De Zerbi, porém, mostra uma lógica bem definida: atrair pressão, acelerar no momento certo e atacar os espaços antes que a defesa consiga se reorganizar.

O problema é que teoria e execução nem sempre caminham juntas. Em um elenco ainda se adaptando às exigências do novo treinador, vários movimentos já aparecem com boa intenção, mas faltam encaixes decisivos para transformar construção em gol. E é justamente aí que mora o desafio do italiano.

Como funciona a ideia de jogo de De Zerbi

O modelo de De Zerbi continua fiel aos princípios que marcaram suas equipes em trabalhos anteriores. A proposta passa por diminuir o ritmo em certos momentos, fazer o rival avançar e, em seguida, verticalizar o jogo com rapidez. Quanto mais agressiva for a pressão adversária, mais direto tende a ser o ataque do time italiano.

Na prática, isso significa explorar o espaço deixado às costas da marcação pressionante. Não por acaso, os atacantes do Tottenham já foram vistos em cenários de maior liberdade nesta temporada. O ponto central é transformar essas saídas em ações que realmente terminem em finalização, algo que ainda não aconteceu com a regularidade esperada.

O desenho tático do Tottenham com posse

Com a bola, o Tottenham costuma se organizar em algo parecido com um 2-3-2-3. Rodrigo Bentancur aparece como o homem de equilíbrio à frente da linha de zaga, enquanto zagueiros, volantes, laterais e pontas alternam zonas para manter a estrutura do time. A movimentação é constante, mas sem quebrar o desenho geral.

De Zerbi também incentiva o jogo por dentro. Essa escolha empurra os meio-campistas e atacantes do adversário para cima, abrindo corredores entrelinhas para os meias ofensivos. Ao mesmo tempo, a compactação central puxa a defesa rival para dentro e libera espaço nas laterais para os pontas atacarem em velocidade.

Esse comportamento já apareceu em lances recentes, inclusive contra o Everton, quando o Tottenham tentou progredir pelo meio antes de soltar o jogo para os lados. A ideia está ali, nítida. O que ainda falta é dar mais continuidade a esse padrão.

O Tottenham ainda hesita no passe mais arriscado

Se a construção até a zona de ataque já acontece com alguma frequência, a etapa final ainda trava. O principal gargalo está na hesitação para enfiadas, passes verticais e bolas nas costas da defesa. Em vários momentos, a movimentação dos atacantes foi boa, mas o passe não saiu na mesma qualidade ou sequer foi tentado.

Há ali uma questão de leitura, mas também de hábito. Parte do elenco ainda precisa assimilar as exigências do novo comando. No início da temporada passada, o Tottenham construía quase todo o jogo pelos lados e evitava o centro do campo. Agora, De Zerbi pede exatamente o oposto em muitos momentos, e mudar isso leva tempo.

Alguns encaixes já parecem mais naturais. Archie Gray, mesmo atuando em função não habitual, respondeu bem em espaços curtos. James Maddison, que voltou de lesão no ombro para a partida da Carabao Cup contra o Liverpool, tende a oferecer justamente o tipo de recepção sob pressão que esse modelo exige. Em termos de perfil, ele ajuda a acelerar a adaptação coletiva.

Movimento sem a bola e presença na área ainda precisam melhorar

Não basta receber bem. O Tottenham também precisa coordenar melhor as corridas de ruptura. Em Marseille, equipe que De Zerbi comandou entre 2024 e 2026, isso funcionou com muita clareza: atacantes partindo de diagonais, passadores verticais confiantes e presença inteligente dentro da área.

Igor Paixão e Pierre-Emerick Aubameyang foram exemplos de como esse tipo de mecanismo podia gerar gols. Um atacava o espaço no tempo certo, o outro aparecia para finalizar. No Tottenham, os sinais existem, mas ainda falta sincronismo. Em alguns lances, a corrida começa cedo demais; em outros, o passe não chega com precisão.

Contra o Liverpool, por exemplo, houve uma transição em que Destiny Udogie avançou bem pela esquerda e abriu a possibilidade de ataque em zona de cruzamento. São ações que mostram progresso, sobretudo porque o adversário já estava desorganizado. Ainda assim, o time não conseguiu converter a oportunidade em uma chance clara de gol.

Por que o problema não é só criação, mas a última decisão

A dificuldade do Tottenham não está apenas em chegar ao terço final. O problema maior é transformar vantagem posicional em chance real. Quando a defesa rival recua, surgem espaços à frente da linha defensiva para chegadas tardias ou para o atacante que se solta da marcação. Esse tipo de lance apareceu em algumas jogadas, mas nem sempre foi aproveitado.

Savio, por exemplo, tem sido mais eficiente na condução até a linha de fundo do que no passe de trás para o pé contrário. Já Udogie e Robertson, em situações semelhantes, conseguiram oferecer cruzamentos mais limpos. Em Marseille, esse detalhe funcionava melhor porque os jogadores da faixa lateral tinham mais conforto para cortar a bola com o pé dominante.

É esse tipo de refinamento que pode mudar o quadro. O Tottenham já consegue gerar movimentos que lembram um ataque pronto para dar certo. Falta, agora, transformar quase em gol.

O que pode acelerar a virada ofensiva do Tottenham

O cenário ainda não é ideal, mas também está longe de ser irreversível. De Zerbi trabalha com uma ideia que exige entendimento coletivo, coragem para jogar em zonas congestionadas e qualidade individual para executar a última bola. Quando esses fatores se alinham, o time passa a produzir com muito mais frequência.

Além disso, algumas peças devem ajudar naturalmente. Pedro Porro, pela capacidade de criar chances e pela tendência a participar mais por dentro, se encaixa bem nas exigências do treinador. Maddison amplia a qualidade entrelinhas. E, com o elenco assimilando melhor os movimentos sem a bola, o Tottenham tende a transformar mais dessas boas saídas em finalizações.

O início ainda mostra um time que está perto, mas não pronto. Só que, olhando o desenho tático, a distância para os gols parece menor do que os números sugerem. Se os detalhes começarem a se encaixar, o Tottenham tem base suficiente para sair dessa seca.

Autor

Jornalista esportivo sênior | 11 anos de experiência

  • Futebol brasileiro
  • Copa Libertadores
  • Seleção Brasileira
  • análise pré-jogo

Carlos Mendes é jornalista esportivo sênior com 11 anos de experiência na mídia esportiva brasileira e internacional. Formado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP). Especializado no Campeonato Brasileiro Série A, Copa Libertadores e jogos da Seleção Brasileira. Ao longo da carreira, cobriu diversas edições da Copa América e outros grandes torneios internacionais. Segue um princípio claro: todo conteúdo deve ser baseado exclusivamente em fontes verificadas e estatísticas oficiais. No Ganhador24, é responsável pela análise pré-jogo, cobertura de torneios e análises aprofundadas dos principais eventos da temporada futebolística.

você também pode gostar